8# MUNDO 21.5.14

     8#1 O NOVO ESTOPIM DOS PROTESTOS NA TURQUIA
     8#2 O SUMIO DE 11 MILHES DE POBRES

8#1 O NOVO ESTOPIM DOS PROTESTOS NA TURQUIA
Exploso em mina deixa quase trs centenas de mortos e provoca onda de manifestaes contra a negligncia do governo do primeiro-ministro Recep Erdogan

Depois de uma breve calmaria, a Turquia voltou a ser palco na semana passada de uma onda de protestos violentos. Desta vez, o estopim foi uma tragdia. Na tera-feira 13, a exploso de uma mina de carvo na cidade de Soma, a 480 quilmetros de Istambul, provocou a morte de ao menos 282 pessoas (o nmero pode aumentar diante da quantidade elevada de feridos) no maior acidente da histria da minerao no pas. No bastasse o choque produzido por um desastre dessa proporo, a populao turca indignou-se com a estupidez das declaraes do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan. 

Acidentes assim so comuns, afirmou Erdogan. Tem uma coisa na literatura chamada acidente de trabalho. Acontece em outros lugares tambm. Ele disse isso diante de parentes das vtimas, algumas delas soterradas vivas a dois quilmetros de profundidade e ainda  espera de socorro. A insensibilidade do primeiro-ministro desencadeou uma reao imediata. Um grupo avanou sobre o comboio oficial, o que obrigou o chefe da nao a se refugiar em um supermercado. No mesmo dia, centenas de manifestantes atacaram o escritrio do Partido da Justia e Desenvolvimento (AKP), o mesmo de Erdogan, e prdios pblicos foram apedrejados. Na capital Ancara, um ato reuniu milhares de pessoas em frente ao Ministrio da Energia, muitas delas carregando faixas que chamavam o primeiro-ministro de assassino.

PROTESTO - Manifestantes atacam escritrio do AKP, partido do governo Erdogan (abaixo): "Acidentes acontecem", disse o insensvel primeiro-ministro

A ira dos manifestantes no foi motivada apenas pelas declaraes irresponsveis de Erdogan. Recentemente, o maior partido de oposio entregou uma petio ao governo solicitando que fossem abertas investigaes sobre as condies de trabalho nas minas de Soma, definidas no documento como degradantes e que colocam em risco severo a vida dos trabalhadores. H duas semanas, a petio foi rejeitada pelo governo, que se referiu ao pedido como um bravata poltica. A bravata, porm, custaria dias depois a vida de cerca de 300 turcos. Em Soma, ocorrem acidentes com mortos a cada trs meses, afirmou Ozgur Ozel, vereador do Partido Republicano, de oposio ferrenha ao governo Erdogan. Estamos fartos de participar de funerais de mineiros, mas o governo no liga para a dor das famlias. Segundo o vereador, nas inspees recentes realizadas nas minas de Soma foram identificadas e denunciadas 66 infraes, mas Erdogan e seus aliados ignoraram as denncias. Ele usa o discurso do desenvolvimento, da necessidade de o pas produzir riqueza, para justificar o no fechamento das minas, disse o vereador.

No poder desde 2003, Erdogan passou a enfrentar uma avalanche de revoltas em junho do ano passado, quando seu governo anunciou a demolio do Parque Gezi, prximo  Praa Taksim, em Istambul, para a construo de um shopping center. A represso violenta contra os manifestantes  o saldo da ao despropositada da polcia de Erdogan foi de oito mil feridos e cinco mortos  teve um efeito contrrio: atraiu mais pessoas para o movimento. Em maro deste ano, a morte de um adolescente de 15 anos, que estava em coma h 269 dias depois de ser alvejado na cabea por uma bomba da polcia durante as manifestaes de junho, levaria mais pessoas s ruas. De novo, o primeiro-ministro revelou sua faceta autoritria. Mandou bloquear o YouTube e o Twitter para evitar o alastramento das mensagens de protesto. Eleito democraticamente por duas vezes consecutivas, Erdogan viu nos ltimos dois anos sua popularidade despencar graas a medidas como a restrio da venda de bebidas alcolicas e o investimento em obras faranicas. A inabilidade para lidar agora com os mineiros de Soma deve ampliar as vozes contra seu governo.


8#2 O SUMIO DE 11 MILHES DE POBRES
Manobra estatstica do governo Cristina Kirchner encolhe o nmero de miserveis do pas e expe o desespero da presidente diante da queda de popularidade

Afundada na crise econmica, com inflao e desemprego em alta, a Argentina agora tem se dedicado a uma atividade pouco nobre  sumir com os seus pobres. Pelo menos no papel. Depois que o governo adiou a divulgao dos ndices oficiais de pobreza e indigncia relativos ao ltimo semestre de 2013, num contexto de queda na aprovao da presidente Cristina Kirchner, a manipulao de dados no Instituto Nacional de Estatstica e Censos (Indec) ficou evidente. Segundo o Indec, 4,7% da populao se enquadra no que os especialistas chamam de linha da pobreza, o que d cerca de dois milhes de argentinos. O dado, porm, est muito longe da realidade. 

 Segundo ex-tcnicos do Instituto, a pobreza real aflige 36,5% dos argentinos, o equivalente a cerca de 13 milhes de cidados. As estatsticas so to desencontradas no pas que os institutos de pesquisa sofrem para encontrar uma mdia, fundamental para o desenvolvimento de polticas pblicas. O Observatrio da Dvida Social, da Universidade Catlica, estima a taxa de pobreza em 27,5%. Na semana passada, a Central de Trabalhadores da Argentina (CTA), ligada a Cristina, disse que o ndice  bem menor. Segundo a CTA, os pobres correspondem a 18,2% da populao. Ainda assim, a proporo  quase quatro vezes superior ao ltimo dado divulgado pelo governo.

ELES SO MUITOS - Construes precrias na periferia de Buenos Aires: quantos so os miserveis?

A causa para a ocultao dos nmeros e para o agravamento da situao social pode estar na inflao. Em janeiro, o Indec introduziu uma nova metodologia para o clculo da variao de preos e, pela primeira vez, o governo admitiu uma inflao mensal acima de 1%, embora ainda menor do que a medida por consultorias particulares. Assim, a explicao oficial para o atraso na divulgao do nmero de pobres est na metodologia, mesmo que os nmeros se refiram ao ano passado. Para os analistas, a pobreza tem avanado porque a inflao cresce num ritmo maior que a massa salarial e o peso segue em desvalorizao. Como resultado, a presso social s aumenta. Na quarta-feira 14, um novo protesto organizado pelo lder da Confederao Geral do Trabalho, Hugo Moyano, o mesmo sindicalista que convocou a greve geral de 10 de abril, tomou o centro de Buenos Aires. Os trabalhadores pedem reajustes de at 31%.

